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Bairro novo

Dizem que a mudança é algo que faz parte da vida, que é assim mesmo, mudamos, vamos para outras pessoas, somos outros lugares. Vim à um bairro novo, na cidade das memórias, me afastei do mar, da montanha e de tudo que me traga distração, existe um forte, apontando ao norte, uma base militar ou algo assim, pareço seguro, sempre sou inseguro. De hora em hora, algum vulto conhecido passa pela janela, não sei bem se chamo ou deixo passar, o chão não é mais areia movediça, a cama não é mais pequena, o pé direito parece aquele dos adultos e o ar parece esfumaçado pelo seu suor. Esta casa não é mais de certezas, bem menos uma prisão, parece até que escolhi vir aqui, os moveis parecem ser planos, as paredes esperança, e o alto dela vejo mais que o forte:O passado esta mais longe, um pouco mais longe. A bagagem é pesada, não há carros por aqui, uma ida e uma volta, uma imersão e uma subversão, passado e presente.   Daqui não posso sentir a fumaça sufocante, sinto cer...

Mãe...

Sabe... No fundo não te desculpo Não é pela vida pobre Não é pela sova farta Não é pela mão firme Nem mesmo pelo ciume desmedido Nem mesmo pelo trabalho jovem Nem mesmo pela inversão Sabe... No fundo não te desculpo por não me deixar elaborar por não me libertar por não me emancipar sabe... Já estou velho para isso, esta revolta adolescente nunca combinou comigo boa praça, bonzinho não faria mal nem mesmo ... ao vizinho sabe... estou farto, deste teu fardo cuidar de tua doença, sem tua presença ser tua cobaia, ter de ser de sua laia sabe... Não sei bem por que voltei aqui. Mãe... no fundo não te perdoo

Repisar

É tão estranho, assim que cheguei mais perto de ti Lembrei deste cheiro, olhei nos seus olhos E como sempre, sendo o dia bom ou ruim, você sorri Daquele nosso jeito, me desarmo aos poucos A conversa segue, em forma de fumaça Você sempre lembra: O quanto agente mudou E no espelho dos nossos olhos vemos muita graça Mas a luta com o tempo continua, um piscar ele passou. Eu não sou o mesmo rio e você não é a mesma mulher Então por que não se banhar em algum álcool qualquer? Mesmo assim sinto que estou a repisar Afinal, a porta sempre esteve meio aberta É ai que me entravo, tropeço no passado Sinto já  conhecer estas pegadas, A pergunta é: Iria a mão dada? A gente se guiaria por esta estrada? Olha só, mais um fio vermelho em minha lapela Lembrança desta ultima noite bela Afirma que somos assim, como a correnteza Arrastamos um ao outro para longe da tristeza. E vamos assim, se deixar indo Talvez o problema nunca tenha sido o caminho....  

Solidão que poeira leve

Falar de solidão não parece de meu feitio Aparento bruto demais para tal coisa... Falo com 300 pessoas por semana Sobre o mundo as estrelas e coisas mais Esbravejo, grito, afago e marco Sou presença e presente Algo que o tempo talvez não apague Mesmo assim, quero falar de solidão... Saído o personagem, caída a mascara me sinto Fausto Desejei algo como a destruição Negociei com o diabo, e perdi Abro as gavetas, roubaram meus cigarros nem a fumaça para me acompanhar um ônibus atrás do outro ninguém me procura nem mesmo eu No jogo entre augusto e branco não sou nem mesmo a plateia talvez eu seja o piso, ou o ar sacolejado, desajeitado, esbofeteado mas... não visto Falar de solidão não parece de meu feitio Aparento bruto demais para tal coisa... Da ultima vez me amarrei com cordas de cetim, espera, foi outra vez Na ultima me perdi em um labirinto espera, foi outra vez Na ultima vez, me atrapalhei e cai Ah sim, desta vez sim... Quebrei a redoma e fada ...

Sou folha

Pois eu sou folha triste a voar pois eu sou folha escrita pelo poeta Ainda respingo seiva de outra vida tinta de outra escrita Em minha estranha forma sou passado e presente mensagem e desaparecimento Sou levado como vento faço cabriolas, rascunhado, me acento sobre o solo surrado Possuo veias sulcos e nervuras emoção e fleuma Sou imagem e objeto palavra e húmus comida de verme de toda forma Pois eu sou folha triste a voar pois eu sou folha escrita pelo poeta

A velha cidade das memórias

Cheguei de malas as ruas ainda são cinzas as férias acabaram a névoa das sete horas já esfumaçam É pouca coisa mudou esta cidade está empoeirada quanto trabalho a se fazer A velha casa das certezas, abandonada me encontro em um banco qualquer um som vem de longe há um teatro aqui nunca vi A morte nos visita com nova opera suas filhas aqui de novo Tristeza e Solidão estas já vi mais cedo Me sento em um acento ocupado, não existem espaços em um lugar como este por aqui em meu cantil algo com cheiro cortante que deixo rasgar entre os pulmões Moria passa entre os vacantes pedindo um pouco de atenção um copeque no chapéu da senhora Estou de volta a cidade das memórias espero ser bem vindo